Completude por meio do colapso

 

Demolir uma casa que não existe. Devolver a imagem para a imagem. Uma área de terras contendo 6.000 pés de eucaliptos de quatro cortes e 120 bananeiras. Justapondo-se dessa maneira, alguns dos enunciados, pensamentos e escritos de Intervalo podem parecer um tipo de objet trouvé pelos meandros da linguagem. No entanto, a bricolagem de tal peça (que também é formalmente intrigante) só poderia existir no ambivalente, lacunar e instável relacionamento existente no Brasil entre sistemas de campos diversos.

 

A obra de Marília Scarabello, ainda emergente, levanta questionamentos e exibe brechas, interstícios e fricções de variadas áreas – da visualidade que se desdobra para a da arquitetura/urbanismo, também flertando com a jurídica/legal, a econômica/social, a fundiária etc. Mais especificamente, o conjunto de fotografias, suportes e documentações explicita elos de profundo estranhamento entre o homem e a cidade, a luta desordenada pela sobrevivência e a burocracia cartorial de classificações racionais (e que se provam nada úteis), o perpétuo movimento do construir (sempre em bases frágeis) e a vestigial e imperfeita memória que se sedimenta pouco a pouco.

 

Para a exposição em Jundiaí, Intervalo se constitui de oito fotografias de imóveis particulares na região de Jundiaí, com inscrições em braile gravadas em sua superfície. Disposta em um suporte amigável para que os registros sejam manuseados, a série ainda exibe a descrição de cada peça. Um envelope com cópia de matrícula junto à municipalidade encerra os dados oferecidos ao público. Os títulos de cada conjunto rimam a escrita objetiva (nesse caso, quase omissa) de como cada propriedade está registrada em cartório e se chocam fortemente com o que está às nossas vistas. Uma casa de moradia. Um terreno destacado de maior porção contendo duas casas, 12 mil pés de uva e um barracão de tijolos. Uma gleba de terras, perímetro rural. Uma gleba de terras, perímetro rural, sem benfeitorias. Uma área de terras contendo 6.000 pés de eucaliptos de quatro cortes e 120 bananeiras (este citado em dois momentos). Um lote de terreno. Um terreno destacado de maior porção.

 

Entre ruínas de anteriores edificações e bairros em veloz ritmo de autoconstrução, com alguns elementos de nossa modernidade algo tortuosa – não sei se o que mais impressiona é o Chevette embalado em lona poeirenta, os arames farpados, os suportes metálicos de lixo, as antenas de TV e a infinidade de grides com funções pouco reconhecíveis -, uma síntese do progresso nacional em contornos destacadamente embaralhados e pouco claros se desenha aos nossos olhos. Contudo, Marília traz à tona uma espécie de subproduto arquivístico da cultura nacional. Mesmo com os ruídos de uma obra como a de Kafka que se coloca à espreita (pensemos em sua descrição dos ambientes burocráticos), a artista resgata das prateleiras e das gavetas atulhadas de papeis de preservação duvidosa como tais lócus se apresentam nessa catalogação legal. Junto, além do registro fotográfico do agora, Marília inscreve, tal qual uma tatuagem, uma sutura, a descrição original do terreno. E a linguagem braile (note-se a adição de mais um alfabeto, de um sistema normatizado de elementos) depositada na superfície dessas imagens menores da urbe é um dado descartável para o observador comum, mas, para alguém sem a visão, torna-se outra coisa – assim, o lateral pode até travestir-se de extraordinário.

 

Apresentando elementos que se localizam entre a visualidade e a escrita, o orgânico tecido urbano e a asséptica burocratização de sistemas, a potência do efêmero e do índice e a infertilidade de procedimentos e metodologias que se vendem como eficientes, Marília cria uma obra que multiplica interrogações e argumentos críticos sobre nossas bases legais, a partir das ferramentas

visuais que o artista contemporâneo pode lançar mão. Nesse ponto, renova poéticas e investigações de nomes fundamentais de amplo escopo, da mineira Rosângela Rennó ao norte-americano de origem chilena Gordon Matta-Clark (1943-1978), por exemplo. Deste último, é interessante lembrar a série Reality Properties: Fake Estates (1973-74), que desentranha como raras vezes foi vista e de modo seminal a restrição da propriedade privada e da posse da terra na América.

 

Por isso, a produção de Marília é além de tudo relevante em um campo essencial num país em desenvolvimento, que é a sua dimensão pública. A própria artista explica: “Enxergo que, ao acessar cartórios e documentos públicos, olhar para processos públicos que envolvem áreas particulares, Intervalo alcança por si só uma dimensão pública, mas não sei dizer qual o tamanho disso. Neste caso, o que mais me tocou foi a questão das temporalidades, das ausências e do movimento contínuo de transformações que, por mais que criemos (nós, seres humanos) mecanismos de controle, não conseguimos ter êxito. São tempos distintos, e nestes tempos (entre estes tempos), existem imensas lacunas”.

 

Mario Gioia, novembro de 2017

*O título deste texto vem de escritos de Gordon Matta-Clark (1943-1978)